3 Locais Insubstituíveis na Itália


ITÁLIA BAROLO

Na Itália dificilmente não encontraremos uma região que não produza seu próprio vinho, suas uvas, sua culinária, seu dialeto, enfim,  sua cultura. Difícil escolher onde ir.

Estes vinhedos de Nebbiolo estão no Piemonte. Ao fundo o Castelo de Barolo que emprestou o nome para estampar rótulos de vinhos muito famosos. 

Optei por pinçar algumas regiões que estão umbilicalmente ligadas aos vinhos. Algumas delas com terroir mitológico.

Escolhi, de sul a norte, opções de variadas uvas e estilos de vinhos. 

SICÍLIA – MUITO ALÉM DO ETNA

marsala salines

Quando falamos em Sicília logo nos vem a mente a imagem do Etna. Tudo aos seu redor, desde os vinhedos, as ruínas, passando pelas vilas medievais. Todas, em alta temporada abarrotada de turistas.

E nos esquecemos do lado oeste da ilha, onde está localizada a cidade de Marsala, com seu vinho especial, suas uvas nativas, sua culinária e seu carpe diem.

Não esqueçam da Sicília e os famosos moinhos dos saleiros. Foto acima.

A ilha está encravada entre a África e a Europa, fica no meio do Mediterrâneo e foi sucessivamente visitada e conquistada por diversos povos antigos. A ilha viu passar o exército de elefantes cartagineses dos generais, Amilcar, Asdrúbal e Anibal, viu a cultura grega difundir-se, veja a história de Agripento, ali nasceu o poeta grego Teócrito, inspirador de Virgílio que serviu de fonte para Dante e sua Divina Comédia.

Hoje a famosa revolução que atingiu todo o Mediterrâneo vinhateiro erradicando vinhas velhas e improdutivas, plantando novas, sejam de castas locais, sejam as chamadas internacionais, modificação na condução (poda) do vinhedo, novas tecnologias na produção dos vinhos, vem originando vinhos muito bons e não necessariamente caros.

As principais castas nativas tintas são Mascalese e Nero D’Avola e, entre as brancas, a Grillo que compõe o famoso Marsala e a Inzollia.

Mas quero destacar que não se vai a Sicília sem visitar o lado oeste da ilha que ainda preserva o modo de vida antigo e sem muitas modernidades. Perca-se em Marsala.

O nome da cidade tem origem no árabe “Marsa Allah”, que significa “Porto de Deus”. Muitos séculos antes da chegada dos árabes, no ano 397 a.C., os fenícios fundaram a cidade de Lilibeo, palavra que quer dizer “cidade que olha para a Líbia”, pois era chamada Líbia toda a costa norte da África.

O VINHO MARSALA

MARSALA

Ali tem um vinho especialíssimo, um tanto conhecido comercialmente no mundo, mas ainda com pequenos e importantes produtores que certamente mostrarão o que tem de melhor.

O vinho é elaborado com as principais brancas, Inzolia, Catarrato e Grillo, entre outras. Os estilos vão do mais seco ao mais doce, dependendo da sua cor.

Sua classificação por qualidade depende da cor. Que vai do ouro ao Rubi passando pelo âmbar, aliás as três cores acima.

Quanto à qualidade esta depende do envelhecimento. O mais jovem é o Fino com pouco mais de ano de garrafa, até o Soleras Extra – Velho com mais de 10 anos de garrafa, passando pelo Superior e o Reserva.

CAMPANIA – NÁPOLE E VINHOS ESPECIAIS

ITÁLIA TAURASSI 1

Destes vinhedos de Aglianico uma uva muito especial em Taurassi, interior da Campania sai um vinho para lá de especial.

Quem, em sã consciência não conhece o litoral da Campania? Nápolis, Sorrento, Capri, enfim, em termos turísticos a região está bem servida e mundialmente conhecida. Conhecida desde o tempo dos Romanos, pois ali estão vários exemplos de ruínas de imperadores que utilizavam-se da região para um spa. Temos as termas de Caracala, as ruínas dos templos gregos e de palácios de, digamos, férias dos imperadores.

Lindo demais, belos restaurantes, estalagens, pequenos locais para deixar o tempo passar. Mas indico a vocês irem mais para o interior da Campania. Três locais especificamente com três uvas muito interessantes. Taurasi, Avellino e Tufo.

Taurasi é uma pequena cidade distante 50 quilômetros do famoso litoral amalfitano escondida  atrás das montanhas. Numa altura média de 400 metros, tem invernos rigorosos e verões cujas noites recebem o carinho da brisa marítima, ideal para o lento amadurecimentos das uvas.

A grande tinta que aqui desponta seu esplendor é a Aglianico um casta tinta de bagos médios e casca grossa. Produz vinhos muito tânicos, alcoólicos e aromáticos. Domá-la não é tarefa fácil, devido aos fortes taninos. Requer cuidado desde a vinha até a sua vinificação.

ENTENDA SOBRE OS TANINOS NO VINHO

Sua fantástica carga de taninos são domados com décadas de experiência na utilização das barricas e do devido descanso deste vinho. Não sem esquecer do merecido descanso que o vinho deve ter. O fundamental sono de uns 5 ou 6 anos é essencial para que o vinho ao ser despertado nos traga todo o potencial da região.

AS BARRICAS NA ELABORAÇÃO DOS VINHOS

O Taurasi é vinho mágico, vermelho bem escuro, aromas poderosos de frutas vermelhas e frutos secos como cereja, ameixa e damasco. Na boca se bem feito e depois do necessário descanso  enchem a boca, final prolongado e muito agradável.

Avellino, mais uma comuna a ser visitada. Fica a 30 KM de Nápole e tem um vinho branco especialíssimo com a uva Fiano.

Uva branca que produz vinhos fortes e de grande personalidade. Podemos até dizer que são a versão branca para a Aglianico. Aromáticos lembrando manga, pêssego e damasco, secos de acidez alta e cor amarelo puxando para o dourado uma companhia ideal neste passeio que estou a falar.

Tufo, outra localidade a ser visitada. Uma sub-região de Avellino tem sua parceira branca a Greco, também vinda da Grécia, assim como a Aglianico, de início,  foi plantada nas encostas do Vesúvio onde ganhou o apelido de Lágrima de Cristo. Depois levada para o interior da Campania e hoje é plantada nos arredores de Avelino. Trata-se de um vinho com bastante personalidade, aromático e de acidez média.

PIEMONTE – LANGHE

No norte da Itália, um terroir a ser conhecido em detalhes, o Langhe. Ali várias uvas conhecidas dos enófilos despontam, DOlcetto, Barbera e Nebbiolo, entre as tintas e Gavi e Moscato entre as brancas. Cidades como Barolo, Barbaresco, Alba e Asti passeiam no imaginário de quem gosta de vinhos.piemonte mapa

A chegada tem que ser na cidade de Alba que fica no centro do Langhe, uma das mais importantes regiões vinhateiras da Itália. Cidade medieval fundada ainda nos tempos da Roma Antiga. Perto dali estão algumas cidades que cedem seus nomes aos rótulos como Barolo e Barbaresco ou estão em grande do vinho produzido no Piemonte como Serralunga, Asti e a própria Alba.

O Langhe ou língua em italiano é uma espécie de planície que se espalha pela região montanhosa da Província de Cuneo. Os vinhedos estão numa altura média de 250 a 300 metros e a volta as montanhas  que possuem altura média de 400 a  500 metros. Ali certamente está concentrado nas uvas Nebbiolo, Dolcetto e Barbera o que de melhor se produz de tinto no Piemonte.

Mais ao nordeste de Asti está Monferrato muito conhecido pelo caminho dos castelos e pelos grandes chocolates da Itália. Mas ali se faz, também bom vinhos, principalmente perto de Asti. Inicia ao sul perto da Ligúria e se estende até o norte/noroeste do Piemonte. Salpicado de vilas medievais originadas em tornos dos castelos. Mais ao norte, perto de Asti as princesas Barbera e Dolcetto ditam o ritmo dos vinhos. Suas características serão vistas adiante.

A Barbera produz vinhos com menos teor de tanino, mas com acidez ainda elevada. Em geral é para serem bebidos jovens sem muitos cuidados para o envelhecimento. Os bons Barbera nos trazem um vinho de médio corpo, acidez marcante (ideais para a gastronomia) e aromas puxando ao cereja e morango, sem maiores complexidades.

A outra princesa, a Dolcetto, minha preferida do Piemonte, principalmente pelo preço dos vinhos, mais baratos, mas não perdendo qualidade. Tradução literal docinho, mas não se trata de uma uva que produz tintos doces, muito pelo contrário os vinhos têm um leve amargor ao final. Em geral são vinhos leves e de médio corpo ideais para serem apreciados jovens, no máximo dois ou três anos depois de engarrafados.

A Nebbiolo, a névoa, a grande uva do Piemonte. Nas cidades de Barolo e Barbaresco, foto abaixo,  alcança a maturidade. É uma casta tinta que produz um vinho quando jovem de forte acidez e taninos muito firmes. Diria até que logo após ser engarrafado, mesmo depois do estágio em barrica é um vinho difícil.  O tempo, em uvas com boas cargas de tanino e de forte acidez faz magias. Depois de um descanso de 5 a 8  anos certamente começamos a ter um vinho esplêndido.

Firme, álcool na medida certa e cor vermelho rubi. Aromas de especiarias, canela, cravo, cereja e ameixa. Ao final o tostado da barrica onde descansou, alguns couro. Na boca o show continua. Encorpado, sem ser pesado, firme e estruturado graças aos seus altos índices de taninos. Um vinho inesquecível.

Três regiões, uvas locais e vinhos especiais.

Já que estamos na Itália.

 

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