A Borgonha Tinta – o Reinado da Pinot Noir


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Estes lindos vinhedos na Côte D’Or com Nuits-Saint-Georges. Ponto de partida para conhecer o berço da Pinot Noir. 

Veremos com calma nesta publicação quais os melhores sítios para esta casta. Aqui repito o recado dado na publicação anterior. Todos os amantes da bebida de Baco e que gostam da Pinot Noir devem compartilhar um vinho de estirpe para entender até onde chega esta uva.

A Pinot Noir manhosa como só ela. Dizem que Deus criou a Cabernet Sauvignon e o diabo a Pinot Noir pela canseira que dá nos produtores. Mudanças climáticas não são bens vindas.

Utilizada no corte clássico do champagne com a prima Pinot Meunier e a Chardonnay. Espalhada pelo mundo, mas é aqui que alcança o esplendor.

Vamos conhecê-la um pouco mais?

Tudo começa no centro da Côte D’Or norte. Nuits-Saint Georges. Uma Comuna em 2010 a comuna tinha 5 600 habitantes. 

A Côte de Nuits, pequena faixa de terra com 25 quilômetros de extensão e um quilômetro de largura, seguramente, após mais de 1000 anos de estudos por parte dos Monges, é o terroir perfeito para a manhosa Pinot Noir.

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Sei que o mundo produz de bons a excelentes Pinot Noir, desde os EUA (Oregon) até Nova Zelândia (Central Otago) passando pelo Chile (Casablanca) a Portugal (Bairrada). Mas em comparação com os grandes de Côte de Nuits só o nome de Pinot Noir tem de igual. Não há meio de comparação.

Deve-se este fato ao clima, ao trabalho secular dos Monges e depois dos proprietários dos vinhedos da região, mas principalmente ao terroir, absolutamente perfeito para esta uva. São vinhos equilibrados, elegantes,as vezes macios, as vezes robustos, perfumados e absolutamente ímpares.

O clima continental de inverno forte e verão quente e seco são ideias para a uva Pinot Noir, quando o clima não está de mau humor. Devemos pensar que os vinhedos da Côte de Nuits são os mais ao norte para vinhos tintos no mundo. Sabe-se que a Pinot Noir gosta de climas frios, ocorre que aqui às vezes há granizos fora de hora, geadas na primavera, enfim, o clima cambia e as colheitas também.

O solo é um verdadeiro mosaico, modificando muito, como digo aqui metro faz diferença na medida em que o solo influencia e muito na qualidade do produto final e define, categoricamente, qual tipo de Pinot será produzido, desde os Village até os Grands Crus.

FRANÇA BORGONHA ROMANÉE CONTI

Para se ter uma ideia vejam esta linda foto com cada Gran Cru perfeitamente delineada. La Tâche, Romanée-C0nti. Cada qual demarcado e muito pequena a área. 

Aqui como na Côte de Beaune, os melhores solos, os de calcário, estão nas encostas dos morros numa altura média de 150 a 250 metros de altura, portanto os mais altos em geral são os melhores, descendo o morro encontramos os Premier Cru e abaixo os Village.

As principais sub-regiões que veremos com mais calma são: Gevrey-Chambertin  Morey St Denis, Chambolle-Musigny, Vougeot, Vosne-Romanée, Flagey-Échézeaux, Nuits St-Georges e Fixin.

Vamos as melhores.

GEVREY-CHAMBERTIN 

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Na Borgonha aqui o passado é presente. Os vinhedos de Chevrey-Chambertin datam de 640 D.C. Já dito que os Monges Cistercienses, grandes enólogos da Idade Média, trabalharam e definiram os melhores terroir da Borgonha para a Pinot Noir e a Chardonnay.

Em Gevrey Chambertin não foi diferente. Os primeiros proprietários das vinhas que hoje formam a região estavam nas mãos dos religiosos da Abadia de Cluny. Após a derrocada da Monarquia com a revolução francesa as propriedades foram divididas entre os familiares dos Duques ou vendidas a peso de ouro.

São 26 Premiers Crus que ocupam a parte superior das encostas com vinhedos plantados entre 300 e 400 metros de altura recebendo o sol da manhã, frente leste. Na base estão os Village.

As vinhas de Gevrey podem ser divididas em três: Os vinhos da parte norte são os vinhos menos interessantes os mais comuns chamados Rouge e Blanc. No lado sul de Gevrey estão todos os vinhedos Grand Cru estão localizadas e, por fim, os do lado leste que margeiam a estrada que corre ao longo da Côte d’Or entre Dijon e Beaune, são os Village.

Os Pinot Noir de Gevrey-Chambertin expressam o que a Côte D’Or pode nos trazer. Aromas florais ou frutados e cor rubi clara quando jovens. Passam para vermelho carmim e aromas de couro e frutos secos. Podem ser apreciados jovens ou mais evoluídos com o tempo. Pode ser apreciados até 8 anos de garrafa. São vinhos fortes com boa carga de taninos, mas, ao mesmo tempo, sedosos e macios.

HARMONIZAÇÃO 

A estrutura deste Pinot aliado aos seus aromas de frutos secos e couro certamente serão parceiros ideais para todos os pratos de carne. De preferência aqueles assados com molhos condimentados.

VEUGEOT

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MONGES CISTERCIENSES

Em Vougeot foi fundada a Ordem dos Cistercienses cujos Monges, na Idade Média, dedicaram-se ao desenvolvimento das vinhas na França.

O Gran Cru Clos Vougeot, foto acima, era propriedade desta Ordem Religiosa e hoje é dividida com mais de 80 proprietários foi totalmente cercada pelos muros existentes até hoje dando o nome de Clos de Vougeot. Maior área de Cru da Borgonha, mas sem perder a qualidade demonstrada em toda a região.

Pensar em vinho na França é necessariamente falar destes Monges. A região central e norte do país, incluindo Loire, Champagne, Alsácia, Rhône e Borgonha foram trabalhadas por estes religiosos.

Um dos mais famosos religiosos desta Ordem foi Don Pérignon cuja lenda concede a ele o descobrimento do método para a produção do Champagne e a famosa frase: Estou a beber estrelas.

A Ordem fundada em 1098, numa região pantanosa, cobertas de capim (“cistels” em francês antigo). Rapidamente, a partir de 1110 em diante, a Abadia de “Cister” foi beneficiada com doações de terras abandonadas que logo trataram de cultiva-las com as vinhas que hoje formam os vinhedos de Clos Vougeot.

Se em Vosne-Romanée fala-se de tamanhos liliputianos aqui se fala da maior área de Grand Cru da Borgonha. Mesmo sendo a maior não há perda de qualidade. O reinado da Pinot Noir continua e a parte mais alta destas suaves colinas da foto continuam disputadas para serem Grand Cru desde os tempos dos Monges.

A qualidade dos vinhos continua alta, seus vinhos são agradáveis, encorpados, perfumados e com vocação para a garrafa, envelhecem e bem por mais de 10 anos com saúde. Parcelas de Chardonnay estão presentes.

Sem dúvida que o maior charme de Vougeot foi ser a sede da fundação desta importante Ordem Religiosa que todos os amantes do vinho deveriam reverenciar.

De solos calcários as vinhas estão plantadas em alturas que variem de 250 a 300 metros. Os tintos são de cor mais escura que os vizinhos Pinot Noir. Aromas mais florais que frutados. Quando evoluídos, isto é, com mais tempo de guarda, nota-se aromas de couro, frutos secos e trufas. Boa acidez e taninos nos remetem a vinhos que envelhecem com saúde.

HARMONIZAÇÃO

Os tintos são robustos e com excelente acidez e carga de taninos. Pedem assados de carne de ovelha, javali, porco ou gado. Molhos densos e picantes.

VOSNÉ ROMANÉ 

FRANÇA BORGONHA VOSNÉ-ROMANÉE

Com a pequena vila de Vosne Romanée ao fundo as vinhas de Pinot Noir ao alto respondem por dois dos mais emblemáticos vinhos do mundo, La Romanée-Conti e o La Tâache, ambos do mesmo proprietário Domaine de La Romanée Conti.

Seguramente daqui saem os melhores Pinot Noir que este planeta consegue produzir. Aqui 14 Premiers Crus e 6 Grands Crus, neste pequeno espaço de terra. Terroir aqui é assunto sério.

Aqui o que a Côte d’Or produz de melhor num canto tão pequeno. Tanto é que a área do Romanée Conti está previamente demarcada por estes muros. O que está dentro é Romanée Conti o que está fora é Vosne Romanée.

A liliputiana Vosne como todas as vilas da Borgonha sofreram forte influência dos nossos amigos Monges Cistercianos por mais de 900 anos, certamente eles foram os principais enólogos que melhoraram e escolheram os melhores terroir para a Pinot Noir.

Também a nobreza francesa, através dos poderosos Duques assumiu o comando político da Borgonha passando as vilas da Borgonha para a mão de poucos donos. De fato positivo foi à criação do canal de exportação destes vinhos para a Inglaterra com o casamento de Henrique V (inglês) com a Catarina de Valois, em 1420, após a batalha de Agincourt.

Com a derrocada da nobreza os vinhedos da Borgonha e de Vosne foram divididos entre vários proprietários, por isto, só na região de Vosne mais de 30 produtores dividem os vinhedos dos Grands Crus.

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Os Grands Crus de Vosne são:

ROMANÉE-CONTI –  O vinhedo Romanée-Conti é o predominante na vila de Vosne . Seu vinhos são seguramente os mais caros do mundo e é o ápice do que pode chegar a casta Pinot Noir.

LA ROMANÉE: É de propriedade do Château de Vosne-Romanée. São vinhos produzidos em apenas 0,84 ha.

LA TÂCHE: Outra propriedade de La Romanné-Conti produzindo vinhos em 6 ha.

RICHENBOURG: É um Cru em 8 ha  estão divididos entre os 10 produtores, incluindo Domaine Leroy e Domaine de la Romanée Conti.

ROMANÉE-SAINT-VIVANT: Produz Pinot Noir fora de série, mas mais leves e sedosos, dos 9,5 ha metadade são da Domaine Romanée-Conti.

LA GRND RUE:  O menos famoso dos seis grandes crus é de propriedade de Domaine de François Lamarche, recentemente promovido a Premier Cru. São 1,4 hectares que situam-se entre Romanée Conti e La Tâche.

Os vinhos quando jovens não apresentam as características que se espera de tão afamados terroir. Mas o tempo faz milagres. Passam a ter cor vermelho intenso a carmim. Aromas delicados de frutos vermelhos, couro e algo herbáceo. Na boca o esplendor da Pinot Noir. Sedosos, encorpados, firmes e delicados.

HARMONIZAÇÃO

A intensidade destes vinhos somado aos taninos firmes e sedosos certamente nos traz pratos de carnes fortes, assadas com molhos temperados. Queijos de massa mais dura com intensos sabores também são bem-vindos.

Eis o mundo mágico da Pinot Noir.

Os vinhos elaborados com a Pinot Noir são vinhos delicados, elegantes e, muitas vezes impactantes como a voz de uma das grandes Damas do Jazz Ella.

 

 

 

 

 

 

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