4 Dicas de Uvas Muito Especiais em Portugal


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Portugal mora no meu coração. Além das pessoas que conheço, dos amigos de infância que moram lá tem a cultura, a culinária e, principalmente os vinhos.

Há vinhos de todos os estilos e bolsos possíveis e com as mais variadas uvas nativas. Muitas delas absolutamente desconhecidas por nós brasileiros outras pouco conhecidas até mesmo para os portugueses.

Por quê não um vinho com elas? Ao falar dos vinhos portugueses fala-se muito das castas por demais conhecidas como a Tinta Roriz ou Aragonêz, a  branca Alvarinho e, principalmente, da onipresente Touriga Nacional.

Aqui quero indicar quatro uvas não tão conhecidas pela maioria dos meus leitores e que produzem vinhos para lá de especiais, seja em varietal (uma só uva) ou em corte (mistura) com outras uvas.

A ideia é beber vinhos diferentes. Quem segue o mesmo caminho chega no mesmo lugar. Porém, quando compro vinhos portugueses vou logo procurar aqueles que as tem. 

BAGA

baga

Esta obra de arte aí da foto foi elaborado com a Baga. Uma uva que merece meu absoluto respeito. Dá uma canseira danada naqueles que querem dela fazer grandes vinhos. Mas e quê vinho, meu amigo.

A Baga, nativa, crescida e nunca saída da Bairrada e de Portugal. Uma uva de bagos muito pequenos e forte carga de taninos. Sensível por demais aos humores do clima, algo normal na Bairrada. 

A região entre o litoral e o Dão no quase no centro do país. Ali nasce aquela que é tânica como a Tannat e manhosa como Pinot Noir, temperamental como só ela, pois pode produzir o que há de melhor até vinhos sem expressão, dependendo do clima e de como é conduzida e elaborada.

Eu sou fã incondicional desta casta, também, porque fora da Bairrada desconheço se produz algo semelhante ao razoável.

A Bairrada, outrora região um tanto desacreditada, até mesmo para os portugueses, por razões culturais, políticas e legislativas, onde o novo estava sempre a ser restrito, principalmente, na legislação relativa aos vinhos da região demarcada.  

Hoje vive-se outra época. Para a surpresa de muitos, grandes empresas lá se instalaram, unindo-se a produtores tradicionais da região e hoje, modernizada e energizada pelas variedades internacionais, como a Chardonnay e a Pinot Noir, a Bairrada vive um grande momento.

De solos argilosos e arenosos, daí o nome Bairrada, vindo de barro. Muito perto do Atlântico e dele sofrendo as variações climáticas.

Como são vinhos bastante tânicos a uva deve amadurecer por completo e, aí mora o perigo. Precisa de podas regulares, muito trabalho em cuidar dos vinhedos para que não pegue umidade no final da sua maturação porque aí vêm as pragas e ela é muito sensível a elas.

Como a Bairrada fica muito perto do litoral, senão com vinhedos a poucos quilômetros dele a umidade impera, mesmo no verão. E sol, calor e umidade não é sinal de sanidade. Esta a dificuldade, ainda mais em se tratando de uma uva com colheita tardia. Sendo extremamente suscetível à podridão, sofre com as primeiras  chuvas de setembro.

Com boas maturações em anos secos, os vinhos da casta Baga assumem uma cor profunda, com fruta de bagas silvestres bem definida, ameixa preta, taninos e acidez marcante, com notas de café, erva seca, tabaco e fumo. Os vinhos da casta Baga apresentam um enorme potencial de envelhecimento em garrafa.

Os bons vinhos elaborados com esta uva lembram os melhores Barolos e Barbarescos, feitos com a Nebbiolo, por exemplo. São vinhos PLENOS no verdadeiro conceito da palavra. Vinhos densos, gordos, cheios de aromas e sabores. Pense naquele vinho cujo retrogosto é muito longo.

Assim, pensem nos vinhos desta uva de produtores como Quinta das Bageras, os vinhos de Carlos Campolargo e da família Pato.

TRINCADEIRA

UVA TRINCADEIRA

A Trincadeira em Portugal, para variar, possui uma enormidade de sinônimos,  Trincadeira Preta (Alentejo – Tejo), Tinta Amarela (Douro), Espadeiro (Península de Setúbal), Crato Preto (Algarve) e assim vai.

É uma variedade temperamental, uma uva estilo ame-a ou deixe-a, muito bem adaptada às regiões mais quentes no centro/sul do país.

Casta que começa a aparecer com mais frequência no centro – sul e irá até o Algarve. Geralmente aparece em corte com a Castelão, nos vinhos do Tejo e Alentejo agregando acidez, frescor e elegância. Contribui, também, com os aromas de frutos vermelhos como amora e ameixa.

Como é muito vigorosa há necessidade de trabalhá-la vem nos vinhedos com as podas necessárias e o espaçamento entre as videiras.

Os vinhos varietais com esta casta são mais raros que aqueles que ela oferece o seu charme para complementar o quadro que é um vinho de corte ou blend. Ali, como falei, aporta acidez o que muitas vezes falta em vinhos de locais quentes como o Alentejo e o Algarve. 

Para harmonizar esta rústica casta com fortes taninos, muitas vezes ainda bem presentes, ou seja, sem que o vinho tenha tido o tempo necessário de guarda (descanso) nas garrafas, algo em torno de 4 a 5 anos, certamente eu iria com carnes assadas e molhos bem consistentes.

ARINTO

UVA ARINTO

Uma das mais importantes uvas brancas do país. A Arinto nascida em Bucelas, nas portas de Lisboa onde viceja com graça e razão nos trazendo vinhos fantásticos. Desde os espumantes até vinhos de sobremesa.

Mas a sua razão de existir é muito maior, mais abrangente. Plantada em quase todas as regiões de Portugal, desde o norte até o sul. Porém, encontra na região de Lisboa, Tejo, Península de Setúbal e Alentejo sua maioridade.

Uva de muitos nomes. Dependendo de onde esteja em Portugal a encontrarás com um nome diferente. No norte atende pelo nome de Pedernã, mas também é conhecida como Pé de Perdiz Branco, Chapeludo, Cerceal, Azal Espanhol. Em geral é uva de corte com outras brancas. O blend varia de região para região. Mas quase sempre com a Fernão Pires, Roupeiro e Moscatel.

Nas regiões de Bucelas, bem perto da capital, e no Minho, terra dos vinhos verdes, esta uva ganha destaque de varietal. No Minho com o nome de Azal está em varietal ou com as outras duas uvas chaves, a Loureiro e Alvarinho. 

Arinto fornece um bom equilíbrio de acidez e fruta.

BICAL

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A Bical cresce na Bairrada (foto) e no Dão que em algumas localidades atende pelo sugestivo nome de Borrado de Mosca devido as pintinhas que tem na casca quando madura. 

Uva precoce por isto deve-se ter cuidado para que não seja colhida com elevados índices de álcool. Acidez acima da média faz com que seja vinificada ao estilo espumante ou em corte com a Arinto. 

Quando bem trabalhado o vinhedo temos um vinho com cor amarelo citrino, aromas de pêssego e damasco. Na boca acidez no ponto certo e grande capacidade de guarda. 

Há vinhos com a Bical que duram muito bem vários anos em garrafa. Particularmente sou fã de carteira desta uva. Seja no corte, seja em varietal ou mesmo na forma de espumante. Mais uma vez a Bairrada e o Dão nos trazendo vinhos especiais.

Quando fica em contato com as cascas ao tempo máximo, além de nos trazer aquela cor laranja característica pode estagiar em barricas trazendo-nos um vinho para lá de especial.

Vinho bom deve ser harmônico. Um vinho com a Baga lembra a insuperável Nina Simone. Ela disse que o artista deve colocar a sua alma no que faz. Concordo. Assim deve acontecer nos bons vinhos.

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