TUDO O QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR


ESPANHA RIOJA ALTA 1

A frase é de Karl Marx ao explicar a fragilidade dos  conceitos e preconceitos do sistema de produção capitalista de sua época. A foto de uma videira de mais de 80 anos em Rioja, Espanha.

Na minha atividade de consultor e escritor de vinhos tenho me deparado com a pulverização de conceitos que tinha antes de lá iniciar minhas atividades.

Conceitos em relação à viagem da teoria para a prática ao abrir vinhos que j[a tinha lavrado o óbito antes de abrir a garrafa.

Entendo  que o vinho é o meio do caminho entre o suco de uva e o vinagre.

Mas os conceitos a que me refiro são ligados aos vinhos mais, digamos, velhos, de alguns vinhos.

Em relação aos brancos a chave da longevidade é a acidez e aos tintos o tanino. Portanto, não é surpresa em verificar o envelhecimento, com saúde, dos Riesling alemães e dos Aglianicos, Itália, por exemplo.

A minha surpresa é com a volatização dos conceitos que tinha.

1º CONCEITO – VINHOS EM ESTADO OXIDATIVO SÃO RUINS

Sempre tive em mente que ao abrir um vinho que já se demonstra cor de tijolo, caso dos tintos e amarelo carregado, caso dos brancos eram vinhos ruins e estragados.  Não dava chance alguma ao vinho.

Pois bem. Abri um Sauvignon Blanc 2005 da África do Sul, um Porcupine. Preço? R$ 50,00.

O conceito que tinha é que seria um vinho velho, eis que esta casta até onde sei não tem vocação para a garrafa.

Ledo engano,  estava espetacular. Cor amarelo carregado, nariz de nozes e fundo de pão de mel. Na boca acidez média e untuoso. Um vinho que mais parecia os bons exemplares dos Chardonnay da Borgonha.

Um Pinot Noir do Chile, Casablanca. Um Loma Larga, safra 2006. Preço? R$ 90,00.

Já temos alguns anos desde o engarrafamento.

Conceito? Um Pinot Noir andino normalmente é feito para ser consumido jovem. A baixa quantidade de taninos desta casta não permite a vocação para a garrafa. Exceção, é claro, aos bons exemplares da Borgonha, onde são trabalhados, desde os vinhedos, para a dormência na garafa.

Desconfiado abri. Cor firme vermelho translúcido, típico dos melhores Pinot mundo afora. Nariz no mesmo caminho, frutado, morango, cereja e por aí vai. Depois de decantado a surpresa, imaginei que fosse estacionar sua evolução. Engano. O PInot cresceu mais ainda. Trouxe ao nariz notas de couro e frutos secos que eu ainda não havia sentido nos Pinot Noir chilenos.

Os dois começam a ter algo de oxidado, mas estão soberbos.

O estado oxidativo em alguns vinhos lhes dá uma elegância que poucas vezes eu vi. Antes de condená-los dê uma chance aos vinhos, ditos, como velhos.

2º CONCEITO – ROLHAS QUE VAZARAM = VINHO ESTRAGADO

Aqui mais um conceito que tinha desapareceu. Sempre tive em mente que quando se abre a cápsula de um vinho e vê-se que a rolha está tingida é certo que o vinho subiu e o líquido da garrafa, pelo contato demasiado com o oxigênio está oxidado.

Eu tinha este pensamento como uma verdade sólida e imutável. Ledo engo, de novo.

Abri alguns vinhos produzidos com uvas sabidamente longevas, como as Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Tannat e Baga.  Rolhas perfeitas. Safras 2001 e 2002. Estavam perfeitos, pensei.

Negativo. Por alguma razão estavam estragados. Pode ser conservação, viagem, lote mal produzido, as razões são várias.

Portanto, mais um preconceito que se foi. Hoje quando abro a cápsula de um vinho e vejo a rolha pintada não dou o veredito tradicional: “Está estragado” mas dou a chance que o nosso amigo merece.

Por isto o vinho me fascina. Aqui não há nada predeterminado. Tudo o que é sólido desmancha no ar.

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