NÃO SE TORNE UM ESTRAGA PRAZER


MESA ITÁLIA

A mesa está posta para uma reunião informal de amigos. Uma linda mesa, diga-se de passagem na Campania, Itália. Uma região debruçada na costa amalfitana.

Pois bem, neste momento surge uma figura que eu combato dia-a-dia, seja informal ou formalmente. Seja na loja, na rua, nos encontros e nos blogs. E os combato porque atrapalham intimidando quem está a iniciar neste mundo, já um pouco assustado com tantas palavras, vinhos e conceitos diversos.

Aliás, o objetivo primeiro da criação deste blog é exatamente este, ajudar a servir de guia neste mundo.

É o famoso estraga prazer, mais conhecido como enochato, aquele que tudo complica com frases de efeito sobre os vinhos, aromas que só ele cheira e informações que só ele sabe. Esta figuras não são exclusividade do vinho, aliás, estão em toda a parte, inclusive já andam falando por aí do cervochato, aquele que entende mais de cerveja do que qualquer outro.

Fala-se de vinhos com origem em uvas americanas, os chamados vinhos de colônia, aqueles mais simples ou fala-se de vinhos doces, aqueles com residual de açúcar de cana e logo vem ele desandar a baixar o pau a falar muito mal e desdenhar de quem se sente feliz ao beber estes vinhos.

Fala-se de vinhos brasileiros e ele logo desanda a falar mal. E assim o faz com qualquer estilo de vinho que ele não goste.

Penso que uma reunião de amigos em torno da mesa, como esta da foto, serve para uma troca de ideias e experiências,  o (con)viver algo raro hoje em dia, enfim, desfrutar do ócio sem maiores pretensões e, claro, muita conversa sobre o vinho. Eu disse conversa sobre o vinho e não imposições de ideias sobre o vinho.

Falamos que tal vinho tem aromas florais, ele logo vem com aroma da Edelweiss colhida nos Alpes e será que ele conhece o aroma desta flor?. Falamos de gosto mineral nos vinhos brancos ele entra com o gosto de petróleo, ora lá alguma vez bebi petróleo? Falamos de final prolongado e ele entre com retrogosto de alta persistência durando cerca de 5 minutos. Nunca parei para medir o tempo do final de gole, simplesmente sinto-o ou não. Falamos, por exemplo, de Bordeaux e alguns de seus vinhos acessíveis é claro e ele vem com Bordeaux caríssimos safras antiquíssimas de leilões disputadíssimos, será que comprou alguns destes? Será que já os apreciou?

Eles vêm sempre com aquelas pontuações e conceitos de Robert Parker e sua turma. Este vinho tem tantos pontos RP, este ele disse que era bom, ora não se bebe vinho pela boca dos outros, cada um de nós tem a sua experiência, suas emoções e lembranças eno-gastronômicas. Isto quando eles não tem suas próprias pontuações, se o Robert Parker original é ruim que dirá o clone.

Afora as frases lapidares. Vinho branco não é vinho. A pensar assim mais da metade do mundo do vinho desaparece. Cote D’Or, na Borgonha, fica pela metade., Riesling alemães de mais de 20 anos de garrafa viram tempero.

Ou o melhor vinho de tal país é este. Ora ele bebeu TODOS os vinhos daquele país? Espelhou-se em algum guia que certamente não apreciou todos os vinhos. Mais, ele mesmo não apreciou os vinhos tratados no guia. Então não me venha falar de MELHOR vinho deste ou daquele país.

Detesto vinho brasileiro e gosta de espumante nacional. Ora, espumante até onde sei é vinho.

Fala com uma propriedade definitiva, este vinho é ruim ou é bom. Não tem vinho ruim ou bom tem vinho estragado ou não. O estragado ninguém quer, de resto é paladar, o melhor vinho é aquele que de dá prazer e ponto final. O horizonte de prazer pode ser aumentado com leitura, degustações, amigos, enfim, troca de experiências, que aliás é o que se busca nestes momentos de encontros eno gastronômicos.

Por fim só gosta de vinhos caros. Já disse que o vinho ao lado da gastronomia e da música são as bandeiras da cultura de um lugar. E, certo, ali não se bebe somente vinhos caros todo o dia. Portanto, pensar assim e pensar errado e, pior, induzir ao erro os iniciantes.

Vamos ajudar o vinho a desmistificá-lo e não a tratá-lo como algo inacessível, com gostos e cheiros que um mortal comum não conhece.

Por fim experiência é o nome que damos aos nossos erros e não fazer algo errado durante vários anos.

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