O Enochato e o desserviço ao vinho


MESA ITÁLIA

A mesa está posta para uma reunião informal de amigos. Nesta ocasião os vinhos nos serão apresentados. Como a curiosidade move o enófilo ou o apreciador de vinhos o momento mágico é aquele em que uma garrafa de um vinho desconhecido será aberta.

Preciso, porém, fazer uma advertência.

Neste momento surge uma figura que eu combato dia-a-dia, seja informal ou formalmente. Seja na loja, na rua, nos encontros e nos blogs. E os combato porque atrapalham intimidando quem está a iniciar neste mundo, já um pouco assustado com tantos rituais, uns necessários outros absolutamente desnecessários. O famoso enochato.

O estraga prazer, aquele que tudo complica com frases de efeito, aromas que só ele percebe e informações que só ele sabe. Estas figuras não são exclusividade do vinho, aliás, estão em toda a parte.

Ele se alimenta do mistério que muitos imaginam que rondam o mundo do vinho esquecendo-se que o vinho é bebida social e de reunião de amigos desde os Gregos Antigos.

Simpósio tem origem na palavra grega symposión que era uma reunião ou festa onde se bebiam os vinhos, sympoten é sinonimo de beber junto, geralmente depois dos banquetes onde os amigos discutiam filosofia e outros assuntos.

Também do grego vem a palavra venerada pelos enochatos, mistério. Através do mistério que tem origem em Mýen (fechar), exclusivamente os olhos com panos quando alguém ingressava em algum ritual ou prática e eram passados a ele as primeiras informações secretas deste culto, aqui o ingresso do novato amante do vinho no “seleto” grupo de entendedores dos quais, nosso inseguro amigo é o chefe máximo. Eles não querem os amigo no vinho (simpósio) eles querem seguidores.

Parece que levam ao cabo e letra a palavra com seus comportamentos estranhos e muitas vezes ridículos quando inventam coisas que o vinho não tem e se tivesse seria um defeito de lesa-pátria.

Penso que uma reunião de amigos em torno da mesa, serve para uma troca de ideias e experiências, o (con)viver algo raro hoje em dia desfrutar do ócio sem maiores pretensões e, claro, muita conversa sobre o vinho. Eu disse conversa sobre o vinho e não o imposições de ideias sobre o vinho.

Falamos que tal vinho tem aromas florais, ele logo vem com aroma da Edelweiss colhida nos Alpes no início da primavera e será que ele conhece o aroma desta flor? Falamos de gosto mineral nos vinhos brancos ele entra com o gosto de petróleo, ora lá alguma vez bebi petróleo? Falamos de final prolongado e ele entra com retrogosto de alta persistência durando cerca de 5 minutos. Nunca parei para medir o tempo do final de gole, simplesmente sinto-o ou não. 

Falamos, por exemplo, de Bordeaux e alguns de seus  vinhos acessíveis e ele é claro vem com Bordeaux caríssimo safra antiquíssima de leilões disputadíssimos, será que comprou alguns destes? Será que já os apreciou?

Eles vêm sempre com aquelas pontuações e conceitos de Robert Parker e sua turma. Este vinho tem tantos pontos RP, este ele disse que era bom, o Robert Parker serve de meu guia somente em vinhos de alguma região que nunca apreciei ou pouco degustei, como por exemplo Romênia, se ele disse que é bom vinagre não será.

Não o sigo pela simples razão de que não se bebe vinho pela boca dos outros, cada um de nós tem a sua experiência, suas emoções e lembranças eno-gastronômicas. Isto quando os enochatos não têm suas próprias pontuações. Se as pontuações, do Robert Parker original, no meu entender mais atrapalham que ajudam quem está a iniciar neste mundo, que dirá a pontuação outras.

Fora as frases lapidares. Vinho branco não é vinho. A pensar assim mais da metade do mundo do vinho desaparece. Côte D’Or, na Borgonha, fica pela metade, Alsácia, França some do mapa, Riesling alemão de mais de 20 anos de garrafa virará tempero.

Ou o melhor vinho de tal país é este. Ora ele bebeu TODOS os vinhos daquele país? Espelhou-se em algum guia que certamente não apreciou todos os vinhos. Mais, ele mesmo não apreciou os vinhos tratados no guia. Então não me venha falar de MELHOR vinho deste ou daquele país. Detesto vinho brasileiro e gosta de espumante nacional. Ora, espumante até onde sei é vinho.

Fala com uma propriedade definitiva, este vinho é ruim ou é bom. Não tem vinho ruim ou bom. Tem vinho estragado ou não. O estragado ninguém quer, de resto é paladar, o melhor vinho é aquele que dá prazer e ponto final. O horizonte de prazer pode ser aumentado com leitura, degustações, amigos, enfim, troca de experiências, que, aliás, é o que se busca nestes momentos de encontros eno gastronômicos.

O que pretendo na sequência é conduzir aqueles que têm menos experiência a apreciar da melhor maneira possível o vinho que está sendo apresentado.

A degustação de vinho tem um ritual mínimo que deve ser seguido à risca para alcançarmos os resultados pretendidos.

Ensinaram-nos a falar e a escrever, mas não a cheirar e a sentir a textura dos alimentos e bebidas. Portanto, temos que educar nosso nariz e boca e o faremos em várias oportunidades

Sabia que se bebe com o olfato? Não. Leia então Os Aromas do Vinho aprofunde o assunto em O Nariz do Vinho O que influencia os Aromaspor fim, Dicas sobre os Aromas

Foram quatro publicações porque na apresentação de um vinho temos as análises Visuais, Olfativas, Gustativas. A menos tendenciosa e que dá margem para menos hipérboles e bobagens é a mais objetiva delas, a cor do vinho e suas tonalidades. Quem quiser leia A Cor do Vinho e suas Mensagens para complementar Dicas sobre a Cor dos Vinhos.

Para conversarmos com o vinho algumas regras devem ser seguidas:

– Serão apresentados vários vinhos? Comece pelo espumante/champagne. Depois os brancos leves. Após os brancos mais encorpados e por fim os que passaram por barricas de madeira. Na sequencia os roses e, por fim, os tintos, na mesma sequencia dos brancos, do mais leve e frutado ao mais encorpado.

– Quantidade muito grande de vinho evite e não faça fiasco. Nossas papilas gustativas estão ativadas somente até a terceira taça, depois amortecem (não se usufrui do vinho como deve ser) e após e o beber somente. Nas feiras ou degustações de vários exemplares USE A CUSPIDEIRA, AQUELE BALDE QUE CUSPIMOS E COLOCAMOS O RESTO DA TAÇA FORA.

– Mulheres, perfume e baton, fora, fora e fora. Atrapalham e muito a parte olfativa da degustação.

– Balance a taça com cuidado E NÃO PRECISA FAZER UM REDEMOINHO, POR FAVOR.

– Cheire o vinho, se precisar cheire um pouco mais forte, NÃO PRECISA FAZER BARULHOS ESTRANHOS.

– Não tenha receio de encher a boca com vinho. Ele deve circular por toda a língua.

– Não tenha receio de falar para quem está ao lado o que cheirou ou sentiu. Talvez a tua simplicidade ajude os amigos a identificarem o que eles não conseguiram identificar.

– Por fim não se torne um estraga prazer.

E já tem tempo que eles existem. Pobre Jesus.

Anúncios

8 pensamentos sobre “O Enochato e o desserviço ao vinho

  1. Bom dia Peter!
    Boa matéria!
    Dias destes encontrei uma descrição em uma das lojas “picaretas” virtuais, descrição fantástica.
    O vinho deveria conter LSD pois deixou a sommeliere que o descreveu alucinada, leia:
    – camadas de açúcar mascavo dançam na boca como gazelas no pasto, envolvidos por nuances de musgo a l m i s c a r a d o os aromas PENETRAM (?) nossas papilas gustativas PROVOCANDO ondas de choque…(creio que ela deveria escrever contos eróticos, iria ganhar bem mais e fazer as pessoas gozarem ao invés de iludi-las com mentiras).tudo isto num bordeaux de última categoria, oferecido a 32,00 pilas..

  2. Peter, você foi impagável nesta coluna.
    Eu sou um caso dos que demorou muito tempo para me ambientar nesse “mundo do vinho” porque me intimidava com esse tipo de sujeito. Outro dia mesmo fui a uma degustação em que o malandro chegou na loja com um charuto na mão, foi direto na mesa dos vinhos mais caros e ficou a noite inteira lá, cheirando aquele charutão apagado (pelo menos esse bom senso ele teve), alugando o sommelier e paquerando as moças presentes num vocabulário que só me restou rir… pra quem está começando o jeito é esse mesmo, levar na esportiva…
    Abraços
    Carlos

  3. Prezado Peter Wolffenbütel

    Este seu artigo “O ENOCHATO” está demais de bom!!!
    Sua capacidade de descrever o “chato” das mesas de vinho, precisa e dosadamente, é para se guardar e…divulgar antes das famigeradas ‘degustações sociais’.
    Um abraço
    MIGUEL MACHADO

    • Mas só ele bebe petróleo ou os vinhos cujas uvas foram colhidas por monjas caolhas que desceram as montanhas na meia noite de lua cheia para colhê-las. Abraço Machado Miguel

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s