A frase é de Karl Marx ao explicar a fragilidade dos conceitos e preconceitos do sistema de produção capitalista de sua época. A gravura é do Mestre incomparável, Escher e demonstra bem a relatividade de nossos pontos de vista. Como pode a água subir? Simples, tudo depende do ângulo que que vemos a fotografia.
Na minha atividade de consultor de vinhos na Enoteca Conte Freire, Rua desembargador Espiridião de Lima Medeiros, 156, Porto Alegre/RS, tenho me deparado com a pulverização de conceitos que tinha antes de lá iniciar minhas atividades.
Conceitos em relação à viagem da teoria para a prática, motivo de post anterior com o título de Dificuldades de Um Blogueiro atrás do Balcão e, agora, ao abrir os mais variados vinhos.
Sei que o vinho é o meio do caminho entre o suco de uva e o vinagre.
Mas os conceitos a que me refiro são ligados aos vinhos mais, digamos, velhos, da loja.
Em relação aos brancos a chave da longevidade é a acidez e aos tintos o tanino. Portanto não é surpresa em verificar o envelhecimento, com saúde, dos Riesling alemães e dos Aglianicos, Itália, por exemplo.
A minha surpresa é com a volatização dos conceitos que tinha.
1º CONCEITO – VINHOS EM ESTADO OXIDATIVO SÃO RUINS
Sempre tive em mente que ao abrir um vinho que já se demonstra cor de tijolo, caso dos tintos e amarelo carregado, caso dos brancos eram vinhos ruins e estragados. Não dava chance alguma ao vinho.
Pois bem. Abri um Sauvignon Blanc 2005 da África do Sul, um Porcupine. Preço? R$ 50,00.
O conceito que tinha é que seria um vinho velho, eis que esta casta até onde sei não tem vocação para a garrafa.
Ledo engano, estava espetacular. Cor amarelo carregado, nariz de nozes e fundo de pão de mel. Na boca acidez média e untuoso. Um vinho que mais parecia os bons exemplares dos Chardonnay da Borgonha.
Um Pinot Noir do Chile, Casablanca. Um Loma Larga, safra 2006. Preço? R$ 90,00.
Já temos alguns anos desde o engarrafamento.
Conceito? Um Pinot Noir andino normalmente é feito para ser consumido jovem. A baixa quantidade de taninos desta casta não permite a vocação para a garrafa. Exceção, é claro, aos bons exemplares da Borgonha, onde são trabalhados, desde os vinhedos, para a dormência na garafa.
Desconfiado abri. Cor firme vermelho translúcido, típico dos melhores Pinot mundo afora. Nariz no mesmo caminho, frutado, morango, cereja e por aí vai. Depois de decantado a surpresa, imaginei que fosse estacionar sua evolução. Engano. O PInot cresceu mais ainda. Trouxe ao nariz notas de couro e frutos secos que eu ainda não havia sentido nos Pinot Noir chilenos.
Os dois começam a ter algo de oxidado, mas estão soberbos.
O estado oxidativo em alguns vinhos lhes dá uma elegância que poucas vezes eu vi. Portanto, antes de condená-los dê uma chance aos vinhos, ditos, como velhos.
2º CONCEITO – ROLHAS QUE VAZARAM = VINHO ESTRAGADO
Aqui mais um conceito que tinha desapareceu. Sempre tive em mente que quando se abre a cápsula de um vinho e vê-se que a rolha está tingida é certo que o vinho subiu e o líquido da garrafa, pelo contato demasiado com o oxigênio está oxidado.
Eu tinha este pensamento como uma verdade sólida e imutável. Ledo engo, de novo.
Abri alguns vinhos produzidos com uvas sabidamente longevas, como as Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Tannat e Baga. Rolhas perfeitas. Safras 2001 e 2002. Estavam perfeitos, pensei.
Negativo. Por alguma razão estavam estragados. Pode ser conservação, viagem, lote mal produzido, as razões são várias.
Portanto mais um preconceito que se foi. Hoje quando abro a cápsula de um vinho e vejo a rolha pintada não dou o veredito tradicional: “Está estragado” mas dou a chance que o nosso amigo merece.
Por isto o vinho me fascina. Aqui não há nada predeterminado. Tudo o que é sólido desmancha no ar.
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