Estes tempos apreciei o Pinot Noir 2010 da Angheben e minhas impressões estão em post anterior.
Desta feita abri um Pinot Noir do mesmo produtor, safra 2008. Além do tempo ter feito sua parte, o próprio vinho f o Pinot Noir foi vinificado com outra proposta.
O PInot 2008 muito mais sério e clássico. Menos fruta, mais concentração, mais força, mais imposição. Lembrando muitas vezes o estilo da Borgonha, da Borgonha, terra desta uva.
Já o Pinot Noir 2010, mais festeiro, mais Noir frutado e menos impositivo. Lembrando o estilo dos Pinot Noir de Casablanca, Chile e da Patagônia, Argentina.
Interessante a comparação para vermos o trabalho do enólogo que decide qual o estilo de vinho a ser produzido, apesar de terem sido feitos com a mesma uva e da mesma região.
Algo como duas versões de uma mesma música.
Ou o estilo clássico ou o moderno, mas a mesma música.
Pois bem, este é um belo vinho. Em conversa com o enólogo a ideia era produzir um vinho descompromissado, mas, ao mesmo tempo, feito com esmero e muito carinho.
E conseguiram.
O produtor dispensa comentários em razão do post anterior onde este blog apresentou a vinícola e seu ideal.
A uva, a Pinot Noir, tem seu berço na Borgonha onde divide as honras com a Chardonnay e alcança seu apogeu, nas suaves colinas da Cote D’Or, como Vougeot, foto abaixo.
Tem mais de 800 anos de história na Borgonha. Produz, entre outros, o famoso Domaine de la Romanée-Conti.
Uva manhosa com as alterações climáticas, de casca fina e poucos taninos, se dá muito bem onde estão as brancas Chardonnay e Sauvignon Blanc, em geral produz vinhos agradáveis, sedosos devido aos baixos taninos, frutada e aromática. Ideal para os dias menos quentes e vai muito bem com sanduíches, peixes com um pouco mais de gordura, massas e pratos mais leves.
Muitos torcem o nariz para a Pinot Noir, por não ser ela estilo tinto retinto com muita madeira. Assim acham o vinho leve e frutado. E é exatamente este o seu charme.
Este vinho é exatamente assim. Descompromissado, mas sem perder a elegância e a qualidade. O esmero com que foi feito está presente em cada gole. De cor vermelho claro e translúcido. Nariz frutado lembrando morango e compota de amoras. Na boca, médio corpo e sedoso. Como não é um vinho impositivo é ideal reunir amigos.
Difícil entender aqueles que somente entendem o vinho tinto como sendo retinto e com muito madeira.
É um Vinho envolvente como este jazz de Charlie Parker e Coleman Hawkins
Iniciando os tintos, no nosso último encontro, começamos pelo Beaujolais, a terceira garrafa da direita para a esquerda. Beaujolais fica acima de Lyon logo no início da Borgonha.
Terra da Gammay, uma uva que antes era plantada em toda a Borgonha. Mas desde os tempos dos Monges enólogos, algo perto do século XIV passou a ser plantada somente ao sul da Borgonha.
Uva de casca fina com puco tanino produz excelentes vinhos tintos frutados para serem bebidos jovens e levemente gelados. É dela os famosos Beaujolais Nouveau, o primeiro vinho a ser engarrafado dentro da safra do ano. Seu lançamento acontece na segunda metade de novembro.
Este vinho da noite foi um Beaujolais que fica ente a linha de entrada, os Nouveau e os Cru que são os grandes vinhos feitos com a Gammay.
Um vinho de cor vermelho claro, ao estilo dos bons Pinot Noir, vejam
Na boca muita fruta e frescor num vinho tinto. Acompanhamento ideal para um bom sanduíche de rúcula com mortadela e maçã verde. Vinho para reunir amigos e bebê-lo sem compromisso. Um exemplo de tinto que não passou por madeira.
Chablis fica a 100 Km a noroeste de Dijon na final da Borgonha. Climas mais frios, invernos rigorosos e verões curtos e secos. Este clima além de dar muito trabalho aos produtores com geadas fora de hora e chuvas de granizo nos trás safras bem diferentes umas das outras, portanto fique de olho no produtor e no importador, vejam no mapa.
A vila de Chablis, foto abaixo
A chardonnay é seguramente a casta branca mais apreciada e plantada no mundo todo. Para muitos a única uva branca que conhecem e gostam. Normal, se pensarmos que a cada 10 vinhos brancos consumido no mundo agora 9 sejam feitos desta casta.
Há os mais variados estilos de Chardonnay na medida em que a casta é extremamente versátil aos terrenos em que plantada bem como o clima da região. Além do que aceita e bem o estágio em madeira.
A Chardonnay de climas mais quentes apresenta-se com mais doçura do fruto, mais frutada e um tanto puxada para o mel e frutas secas.
Em climas mais frios apresenta-se mais ácida, seca e com aromas cítricos.
Quando passada por carvalho apresenta-se mais amanteigada com aromas de baunilha.
MAS NUNCA SERÁ PERTO DO QUE SE APRESENTA EM CHABLIS.
Mas sem dúvida alguma a região nos traz um Chardonnay completamente diferente dos que aí se vê. Quem não sabe tem dificuldade de aceitar que aquele vinho seco, ácido, aromático, lembrando grama molhada, cítricos, lima-limão e extremamente mineral seja feito da Chardonnay.
A classificação do Chablis varia do básico Petit Chablis, passando pelo Chablis, depois premiere Chablis e chegando ao topo os Grand Cru. Variações de solo, localização do vinhedo e insolação ao final do período de maturação determinam a qualidade final do produto. De novo o terroir da Borgonha influenciando diretamente o produto final.
Um grande rival de Chablis fica na própria Borgonha, mais precisamente na Côte de Beaune, como vimos em post anteriores, Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet e Mersault que produzem um Chardonnay mais caloroso, amendoado e lembrando frutas secas, como damasco e tâmaras.
Mas seguramente um Chablis está no grupo de elite dos vinhos brancos junto com os Riesling, Semillon, Gewürtztraminer, Pinot Griss e Grünner Veltiner.
Pausa para o almoço em Chablis. Aqui vamos conversar sobre a internacional Chardonnay antes de irmos para Jura e Alsácia.
Ao menos espiritualmente estou a encontrar os meus amigos nesta loja de vinhos em Fixin para conversar sobre a magia da Borgonha. Fixin e Marsannay já na borda de Dijon produzem ao estilo da Côte D’Or, mas sem a exuberância de seus parceiros mais ao sul.
São Pinot Noir cheios de sabor e bem estruturado, embora não tão complexo quanto os seus primos do sul. Como seus vinhos não alcançaram a fama dos vinhos mais ao sul os seus preços não são iguais, são mais acessíveis com preços mais baixos e excelente oportunidade para iniciar a viagem para esta região mágica.
A grande maioria dos vinhos são da Pinot Noir, mas não impede que haja brancos feitos de Chardonnay.
O terroir aqui não é tão extremo como nas comunas mais ao sul da Côte de Nuits, mas os melhores saem das encostas, de novo, mais acima melhora a drenagem do solo e a Pinot Noir agradece, os Premier Cru de Fixin são plantados nos locais mais altos.
Agora vamos mais ao norte fora da Côte D’Or para conhecermos Chablis e seus Chardonnay metalizados e únicos.
Como visto ao longo dos post sobre a Borgonha aqui o passado é presente. Já dito que os Monges Cistercienses, grandes enólogos da Idade Média, trabalharam e definiram os melhores terroir da Borgonha para a Pinot Noir e a Chardonnay.
Em Gevrey Chambertin não foi diferente. Os primeiros proprietários das vinhas que hoje formam a região estavam nas mãos dos religiosos da Abadia de Cluny. Após a derrocada da Monarquia com a revolução francesa as propriedades foram divididas entre os familiares dos Duques ou vendidas a peso de ouro.
As vinhas Gevrey podem ser divididas em três: Os vinhos da parte norte são os vinhos menos interessantes os mais comuns chamados Rouge e Blanc. No lado sul de Gevrey estão todos os vinhedos grand cru estão localizadas e, por fim, os do lado leste que margeiam a estrada que corre ao longo da Côte d’Or entre Dijon e Beaune, são os Village.
Em Vougeot foi fundada a Ordem dos Cistercienses cujos Monges, na Idade Média, dedicaram-se ao desenvolvimento das vinhas na França. Pensar em vinho na França é necessariamente falar destes Monges. A região central e norte do país, incluindo Loire, Champagne, Alsácia, Rhône e Borgonha foram trabalhadas por estes religiosos.
Um dos mais famosos religiosos desta Ordem foi Don Pérignon cuja lenda concede a ele o descobrimento do método para a produção do Champagne e a famosa frase: Estou a beber estrelas.
A Ordem fundada em 1098, numa região pantanosa, cobertas de capim (“cistels” em francês antigo). Rapidamente, a partir de 1110 em diante, a Abadia de “Cister” foi beneficiada com doações de terras abandonadas que logo trataram de cultiva-las com as vinhas que hoje formam os vinhedos de Clos Vougeot.
Clos Vougeot era propriedade desta Ordem Religiosa e hoje é dividida com mais de 80 proprietários foi totalmente cercada pelos muros existentes até hoje dando o nome de Clos de Vougeot. Maior área de Cru da Borgonha, mas sem perder a qualidade demonstrada em toda a região.
As suaves colinas da Côte D’Or cntinuam presentes, vejam a foto de Vougeot.
Se em Vosne-Romanée fala-se de tamanhos liliputianos aqui se fala da maior área de Grand Cru da Borgonha. Mesmo sendo a maior não há perda de qualidade. O reinado da Pinot Noir continua e a parte mais alta destas suaves colinas da foto continuam disputadas para serem Grand Cru desde os tempos dos Monges.
A qualidade dos vinhos continua alta, seus vinhos são agradáveis, encorpados, perfumados e com vocação para a garrafa, envelhecem e bem por mais de 10 anos com saúde.
Mas, sem dúvida que o maior charme de Vougeot foi ser a sede da fundação desta importante Ordem Religiosa que todos os amantes do vinho deveriam reverenciar.
Com a pequena vila de Vosne Romanée ao fundo as vinhas de Pinot Noir ao alto respondem por dois dos mais emblemáticos vinhos do mundo, La Romanée-Conti e La Tâache, ambos do mesmo proprietário Domaine de La Romanée Conti. Seguramente daqui saem os melhores Pinot Noir que este planeta consegue produzir. E isto numa região que soma 40 Grand Cru neste pequeno espaço de terra. Terroir aqui é assunto sério, já disse e reptio, centímetro aqui faz diferença.
Tanto é que a área do Romanée Conti está previamente demarcada por estes muros. O que está dentro é Romanée Conti o que está fora é Vosne Romaée.
stes vinhos da Borgonha estão para os apaixonados por carro como um Ferrari, uma Mercedez, enfim, sonho de qualquer amante dos vinhos.
Eu mesmo custei a acreditar que um vinho pudesse alcançar os valores que consegue em Vosne Romanée, claro que há over price pela propaganda, pela fama e outros fatores que encarecem o vinho sem que seja exclusivamente a qualidade da uva, solo e trabalho dos produtores.
A liliputiana Vosne como todas as vilas da Borgonha sofreram forte influência dos nossos amigos Monges Cistercianos por mais de 900 anos, certamente eles foram os principais enólogos que melhoraram e escolheram os melhores terroir para a Pinot Noir.
Também a Nobreza Francesa, através dos poderosos Duques assumiu o comando político da Borgonha passando as vilas da Borgonha para a mão de poucos donos. De fato positivo foi a criação do canal de exportação destes vinhos para a Inglaterra com o casamento de Henrique V (inglês) com a Catarina de Valois, em 1420, após a batalha de Agincourt, pequena vila perto de Nuit Saint-Georges.
Com a derrocada da nobreza os vinhedos da Borgonha e de Vosne foram divididos entre vários proprietários, por isto, só na região de Vosne mais de 30 produtores dividem os vinhedos dos Gran Cru.
Os principais Grand Cru de Vosne são:
ROMANÉE-CONTI: O vinhedo Romanée-Conti é o predominante na vila de Vosne . Seu vinhos são seguramente os mais caros do mundo e é o ápice do que pode chegar a casta Pinot Noir.
LA ROMANÉE: É de propriedade do Château de Vosne-Romanée. São vinhos produzidos em apenas 0,84 ha.
LA TÂCHE: Outra propriedade da Domaine de la Romanée Conti produzindo vinhos em 6 ha.
RICHENBOURG: É um Cru em 8 ha estão divididos entre os 10 produtores, incluindo Domaine Leroy e Domaine de la Romanée Conti.
ROMANÉE SAINT-VIVANT: Produz Pinot Noir fora de série, mas mais leves e sedosos, dos 9,5 ha metadade são da Domaine Romanée-Conti.
LA GRAND RUE: O menos famoso dos seis grandes crus é de propriedade de Domaine de François Lamarche, recentemente promovido a Premier Cru. São 1,4 hectares que situam-se entre Romanée Conti e La Tache.
A Côte de Nuits, pequena faixa de terra com 25 quilômetros de extensão e um quilômetro de largura, seguramente, após mais de 100o anos de estudos por parte dos Monges, é o terroir perfeito para a manhosa Pinot Noir.
As portas da Côte de Nuits, a chamada parte norte da Côte D’Or, estão abertas. Château como este são tradicionais na região. Aqui inicia o reino da Pinot Noir.
Terroir, palavra tão gasta pela mídia, aqui aparece com todo o seu esplendor. Centímetro faz diferença. As áreas nobres para os Gran Cru muita vezes terminam meio metro para cá ou para lá. Certamente não foi numa noite de insônia que estas áreas foram demarcadas, mas sim após séculos de estudos sobre o terroir adequado.
Falar em Pinot Noir aqui é falar de vinhos mágicos, vinhos que certamente ficam na memória de quem os aprecia. E dificultam gostar de outros vinhos por um bom tempo.
Sei que o mundo produz de bons a excelentes Pinot Noir, desde os EUA (Oregon) até Nova Zelândia (Central Otago) passando pelo Chile (Casablanca) a Portugal (Bairrada).
MAS EM COMPARAÇÃO COM OS GRANDES DE CÔTE DE NUITS SÓ O NOME PINOT NOIR É IGUAL. Não há meio de comparação.
Deve-se este fato ao clima, ao trabalho secular dos Monges e depois dos proprietários dos vinhedos da região, mas principalmente ao terroir, absolutamente perfeito para esta uva. Daí saem vinhos únicos e como disse o Paulo Queiroz (nossovinho) perfeitos para namorar. São vinhos equilibrados, elegantes,as vezes macios, as vezes robustos, perfumados e absolutamente ímpares.
O clima continental de inverno forte e verão quente e seco são ideias para a uva Pinot Noir, quando o clima não está de mau humor. Devemos pensar que os vinhedos da Côte de Nuits são os mais ao norte para vinhos tintos no mundo. Sabe-se que a Pinot Noir gosta de climas frios, ocorre que aqui as vezes há granizos fora de hora, geadas na primavera, enfim, o clima câmbia e as colheitas também. ASSIM É IMPORTANTE VERIFICAR A SAFRA DO PINOT NOIR ADQUIRIDO OU COMPRÁ-LO DE UM IMPORTADOR SÉRIO PARA EVITAR SURPRESAS.
O solo é um verdadeiro mosaico, modificando muito, como digo aqui metro faz diferença na medida em que o solo influencia e muito na qualidade do produto final e define, categoricamente, qual tipo de Pinot será produzido, desde os Village até os Gran Cru.
Aqui como na Côte de Beaune, os melhores solos, os de calcário, estão nas encostas dos morros numa altura média de 150 a 250 metros de altura, portanto os mais altos em geral são os melhores, descendo o morro encontramos os Premier Cru e abaixo os Village.
As principais sub-regiões que veremos com mais calma são Gevrey-Chambertin Morey St Denis, Chambolle-Musigny, Vougeot, Vosne-Romanée, Flagey-Échézeaux, Nuits St-Georges e Fixin.
E não esqueçam a Côte de Nuits também produz excepcionais Chardonnay.
Aloxe-Corton é o último suspiro da Chardonnay na Côte D’Or. E que suspiro. Aqui tendo o Château-Corton, este aí da foto, como base central.
Os vinhedos de Corton estão localizados a 5 quilômetros ao norte de Beaune e produzem tanto Pinot Noir quanto MARAVILHOSOS Chardonnay. As melhores vinhas estão ao redor do Monte Corton que se eleva a 380 metros.
Como disse os vinhedos espalham-se ao redor do Monte Corton e é como descer o monte em espiral. Os melhores vinhedos estão na face sul sudoeste. Ao pé do monte estão as Pinot Noir.
Um dos mais fantásticos Grand Cru exclusivamente de Chardonnay da Côte D’Or saem de minúsculas áreas que somadas chegam a 0,30 hectare, isto mesmo, algo como um campo de futebol e nada mais em Corton-Charlemagne. (Carlos Magno) este nome lembra algumas passagens da história da França? Desde aquela época já andava por lá, portanto não é de hoje que estes vinhedos produzem estas pérolas.
COMENTARIOS RECENTES